segunda-feira, 3 de junho de 2013

Momento de vida

Acredito que a minha geração tenha sido a primeira a usufruir com plenitude do direito de viver várias vidas numa mesma vida. Foi um direito tão incentivado, que aos poucos se tornou um dever. E assim, rapidamente, nos tornamos também a primeira geração a maximizar o valor do erro, mergulhar no individualismo e experimentar um conceito mais amplo de livre arbítrio.

E por sermos cobaias nestes contextos, nós, nascidos depois de 1970 e alguns anteriores e posteriores que se identificam conosco, criamos ou fomos induzidos a usar uma expressão chamada “momento de vida”. É o “momento de vida” que define a fase atual, o hoje.  Amanhã pode não ser. Ontem já não vale. O “momento de vida” é agora.

Um novo emprego, uma história de amor, aquela aplicação financeira, o posicionamento político, a compra financiada. Pronto. Surge um novo "momento de vida".  E por termos sido a primeira geração a conviver junto deste conceito, chegamos à idade adulta com uma tolerância maior às variações que a vida oferece à condição humana.   

Esta resiliência, contudo, também trouxe algumas dificuldades. Uma delas, por exemplo, é a percepção de que algumas fronteiras comportamentais se dissiparam. Assim, nossa visão de mundo tornou-se confusa, pois a cada novo “momento de vida” não sabemos se estamos sendo obstinados ou teimosos, responsáveis ou medrosos, estáveis ou comodistas, corajosos ou inconsequentes.

No campo afetivo, por exemplo, o “momento de vida” tornou-se uma espécie de veredicto para justificar o sucesso ou o fracasso emocional. A relação deu certo porque estão no mesmo “momento de vida”. O namoro terminou porque estavam em “momentos de vida” diferentes.

Entre os que exaltam o "momento de vida" , há dois grupos antagônicos: aqueles que acreditam que o amor nasce dum “momento de vida” e os que acreditam o “momento de vida” nasce de um amor.   

Eu não sei exatamente qual a relação entre amor e “momento de vida”. Mas sei que existe. E acredito que os casais que compreendem esta relação têm mais chance de ser felizes.

É que gostar, amar e adorar algo ou alguém são ações intrínsecas à nossa existência. E tornar-se um camaleão social passou a ser uma habilidade e uma obrigação do nosso tempo. Sendo assim, para que as pessoas continuem pessoas, porém modernas e não vivam sozinhas, só há duas soluções: arranjar uma companhia para cada “momento de vida” ou uma companhia que componha todos os seus “momentos de vida”.         

2 comentários:

  1. Cássio, olha aí o concurso que tá rolando. "Concurso Felippe d' Oliveira", de contos, crônicas e poesia.
    Segue link em que encontras o edital:
    http://www.santamaria.rs.gov.br/?secao=eventos&sub=ver&id=977

    Fica a dica.
    Bom fim de semana!

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  2. Obrigado, queridona! Beijo grande e obrigado pela leitura!!!

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