terça-feira, 30 de julho de 2013

Noite branca

O inesperado é amigo íntimo do impressionante. Nem sempre andam juntos, mas mantém um vínculo forte. E quando se encontram, geralmente algo surreal acontece. Na noite de 22 de julho foi assim.
    
O frio era impressionante. A neve, esperada. Porém, foi surreal pela quantidade de neve e o deslumbre, sofrimento, angústia, solidariedade, coragem e insensatez que as mais de sete horas ininterruptas de neve despertaram nas cerca de 90 pessoas que ficaram isoladas no alto da Serra do Sossego, 1.268 metros acima do nível do mar, ponto mais alto da BR-116, no município de Santa Cecília, em Santa Catarina. Éramos todos reféns do gelo branco.  

Ainda na estrada, era como estar dirigindo contra um enxame de flocos de algodão.  Ao contrário do que fazem os pingos de chuva, que se jogam violentos, aqueles pedaços de neve chegavam dançando pela escuridão, fazendo duplos twistes carpados.  Então planavam, pousavam no para-brisa. Depois, brincavam de escorregar pelo vidro com a ajuda da palheta do limpador. Enquanto isto, o chão já era uma amostra de solo finlandês, resumindo o asfalto a duas listras cor de chumbo. Eu contra a pista de manteiga. A traseira do carro já dançava funk.

Foi quando um vulto verde apareceu.  O funcionário da concessionária da rodovia orientou a encostar o carro naquele ponto de apoio. Além do gelo na pista, a estrada estava interditada na direção do RS. Um caminhão ficara atravessado na via. Um posto de gasolina e o prédio da Polícia Rodoviária Federal, metros adiante, eram os outros únicos refúgios num raio de cinco quilômetros.

Diante da neve, fotos, filmes, fotos, filmes, fotos, filmes. Ninguém acreditava no que via. Era muita neve. Era inesperado. Era impressionante. Era surreal.

Porém, passado o fascínio inicial, aos poucos, a noite ganhou pequenos dramas. Uma família com uma criança de três anos, um jovem com a perna engessada, um caminhoneiro obrigado por alguém ao telefone a seguir viagem de qualquer maneira, outro caminhoneiro sem agasalhos, um casal de idosos, a equipe de resgate que passaria a noite ao relento foram alguns dos personagens, junto com dezenas motoristas ilhados nos trechos de acesso à Serra. Caminhões não conseguiam tração para subir, nem aderência para descer. Tudo, literalmente, parado.  

E foi pouco depois 23 horas, no ápice da neve e do frio, que outros momentos impressionantes e inesperados começaram a acontecer.  

Um homem, vendo a situação do rapaz com a perna fraturada, ofereceu o baú do caminhão para que ele pudesse descansar com mais comodidade; alguém entregou bolachas e doces para a equipe de resgate que passaria a noite ao longo da rodovia; eu, junto com o pai da criança de três anos, caminhei por dois quilômetros na neve para avaliar a única possibilidade de passagem, entre dois caminhões, para que o mesmo tentasse seguir viagem; o caminhoneiro desprevenido logo conseguiu uma jaqueta; o casal de idosos ganhou preferência em frente ao aquecedor.

Tudo aconteceu com tanta naturalidade que parecia um destes filmes institucionais. Aquela espécie de corrente do bem fez com que o impressionante e inesperado se transformasse no óbvio entre desconhecidos.

Eram 04h50min quando criei coragem de seguir viagem pela estrada ainda branca e azeitada. Saí dali com fotos, vídeos e com a certeza de que aquela noite que foi tão surreal quanto óbvia. Surreal pelo clima. Óbvia porque as pessoas ainda são, diante de uma situação extrema, acima de tudo, humanas. 

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