terça-feira, 6 de agosto de 2013

O homem pegador

É engraçado como alguns conceitos a respeito de homens e mulheres oscilam como se estivessem num mercado de capitais. Por influência de novelas, filmes e até livros, determinados perfis se põem em alta. E pelos mesmos vetores, outros entram em baixa.  Se não falha o prisma dos meus trinta e poucos anos, há um estigma da vez, que já vinha com viés de baixa faz algum tempo e agora confirma a trajetória de queda: o homem pegador.

Acredito que as origens do homem pegador remontam ao nascimento da liberdade sexual feminina, naquela época depois da pílula e antes da AIDS, em que as mulheres descobriram o sexo sem compromisso. Deslumbrados com a novidade, o sexo, sempre importante na concepção masculina de mundo, passou a ser a unidade de medida na competição de quem era mais homem.

A autoafirmação acontecia conforme elevava-se o número de mulheres que permitissem a ele mostrar sua condição de macho. Pela beleza, riqueza ou inteligência, os mais aceitos eram os pegadores, admirados por eles, desejados por elas.  

Hoje, com a liberdade sexual feminina já adulta, há quem diga, até maior que a masculina, o homem pegador entrou em processo de falência. Isto acontece, óbvio, porque a competição acabou. No mundo do sexo fácil, lógico, a quantidade de sexo deixou de ser parâmetro. É bem possível e, em alguns casos, provável, que muitas mulheres na faixa dos trinta anos, solteiras ou separadas, tenham um número maior de parceiros do que o próprio pai teve em relação às mulheres durante os áureos tempos da era dos homens pegadores.

Então acontece, que entre os próprios homens, aquele sujeito que chega e fala que dormiu uma noite com cada ou que tem um cartel de opções já não é mais referência.  Pelo contrário. Passa por chato, passa por imaturo, passa por pegador. Passa por aquele que não percebeu ou entendeu a metamorfose comportamental dos últimos anos.


De certa forma, talvez seja o homem pegador o exemplo mais clássico do nosso tempo, traduzido com precisão pelo polonês Sygmunt Bauman, em sua visão líquida de vida, amor, modernidade, felicidade e medo no nosso tempo. Segundo ele, numa sociedade que vive mergulhada na angústia das múltiplas possibilidades de escolhas, a postura da versatilidade diante da incerteza acaba se tornando um ato de defensivo.

Ou seja, o homem pegador, em resumo, sempre buscou na multiplicidade de corpos uma fuga para a singularidade da própria insegurança. 

3 comentários:

  1. O ideal seria que os nossos amores acontecessem e durassem na medida da nossa necessidade.
    Nem ficássemos tempo demais, numa relação falida, nem descartássemos, na primeira dificuldade, uma possibilidade de encontro..

    ResponderExcluir