quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Ela e os olhares

Ela está em crise. Não recebe mais os olhares de antes. Quando passa, percebe que os homens já não a miram.  Raros são os que a observam. Escassos são os que a analisam quando passa.   E quando o fazem, ela não percebe desejo. Volúpia nos olhos ela só tem do marido, que a ama e a quem ela ama e nunca pensou em trair. Mas ela sente falta dos olhares alheios, desconhecidos. E assim, ela entra num quadro depressivo.

É quando começam a surgir bilhetes anônimos de um admirador. Com palavras sutis, ele a exalta, elogia. Ela deveria ficar assustada. Mas fica feliz. Começa a imaginar quem seria o seu seguidor secreto, que repara em seus detalhes. E aos poucos transforma sua vida. Ela, agora, se veste para alguém que não conhece.  Caminha desfilando para alguém que não faz idéia quem seja.  Volta a sentir-se mulher.   

Este é o enredo do livro A Identidade, do tcheco Milan Kundera. São cerca de 120 páginas de uma narrativa não tão atrativa, mas que vale pela imersão que o autor conseguiu fazer na construção do imaginário feminino.  A nós homens, foi uma espécie de aula sobre este centro nevrálgico da alma feminina que cria uma necessidade de admiração.

Qual homem nunca suou diante da pergunta “não notou nada de diferente?” ou alguma variante? Qual homem nunca se questionou se aquele vestido mais insinuante em uma festa era só para ele ou exibição por parte dela?

A insegurança masculina diante da necessidade de admiração feminina é um fato. Então, aprende-se desde cedo que quando ela quer elogios, ela sabe como tê-los. E é direito dela recebê-los. Ao vestido provocativo, repreender é retrocesso. Indiferença é desprezo.  Impedir que uma mulher se vista como queira é absurdo. Dar de ombros  à roupa com que ela se sente mais mulher é um convite a que outro dê de olhos. A relação é a dois. Mas o corpo é dela. E é através do corpo que ela se sente mulher.  

E fato também é que nós homens nunca vamos saber até que ponto o olhar alheio masculino carregado de desejo é necessário para que uma mulher se sinta mulher em plenitude. Não que sejamos traídos inconscientemente quando isto acontece. É só uma conseqüência de um comportamento induzido à personalidade feminina, lapidado desde a infância.

Toda menina, mesmo que não seja, é chamada de linda. Toda boneca precisa arrumar-se para ficar bela. Cada vez mais cedo, escovas, pentes, unhas postiças, brilho labial, batom e outros acessórios fazem parte do cotidiano feminino já na infância. E assim, cria-se entre elas, desde a primeira idade uma competição velada mesclada a uma ação entre amigas. Tu me elogias. Eu te elogio. Uma sempre será linda à outra.  É por isto que, de certa forma, o elogio feminino perde o valor.


Talvez seja por isto também que o olhar masculino se faz necessário. É uma espécie de comprovação de que a roupa escolhida foi correta e a maquiagem adequada. Afinal, qual mulher, numa calçada qualquer, nunca ergueu o rosto, inflou a alma e mudou o compasso da caminhada depois de um olhar anônimo de admiração?  

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