terça-feira, 24 de setembro de 2013

O tamanho do gostar

Há várias maneiras de se gostar de alguém. Admiração discreta, entusiasmo explícito, gostar colérico, querer bem, amor inexplicado.  E por haver tantas formas de se cultivar sentimento positivo, é natural do ser humano medir do afeto. Fazemos isto involuntariamente desde sempre. Na primeira relação com a mãe, lá estamos nós a avaliar pela resposta à intensidade do choro a dimensão do gostar.

Assim, vamos aos poucos criando os nossos próprios rankings e escalas, baseados no radicalismo da ingenuidade e do fanatismo da infância. Afinal, na linguagem infantil, tudo é simples: gostar é amar; não gostar é odiar. Comidas, cores, matérias de colégio, brincadeiras, artistas, músicas. Tudo precisa uma ordem de preferência para fazer sentido.

A cena clássica que demonstra esta fase é aquela em que a criança pergunta a um adulto que lhe é referência “quanto tu me ama?” ou afirma “eu te amo mais que tudo”. A amigos diz, “quem é o(a)  teu/tua melhor amigo(a)?” ou “ninguém é mais amigo meu do que tu”. O afeto torna-se uma necessidade. Demonstrar afeto também.

Conforme a vida vai apresentando novas faces, aprendemos a usar a ferramenta da relativização. Além de uma hierarquia de importância, tudo ganha uma classificação de acordo com as nossas necessidades e desejos. Quando chegamos à apoteose hormonal da adolescência, são estas referências e escalas construídas nos primeiros anos de vida que vão balizar todo nosso comportamento diante da intensidade platônica que as sentimentalidades e desejos passam a gerar.  E conforme as experiências de vida vão se acrescendo, é normal que conflitos ou surjam e a complexidade da escala vá se tornando maior do que o discernimento emocional possa interpretar.

Uma experiência sexual inesquecível com alguém por quem não se tem afeto; o adorar alguém por quem não se tem instinto; o trabalho que nos mata aos poucos, mas remunera satisfatoriamente; o emprego que traz brilho aos olhos e vácuo ao bolso. Todos estes são só alguns dos elementos que compõem as escolhas que aprendemos a fazer com base nas escalas de afeto que criamos lá no início da vida.

É por isto que me surpreende quando vejo pessoas adultas exigindo demonstrações de afeto, amor, gratidão, lealdade ou qualquer outro sentimento nobre. Esta é apenas uma maneira adulta de praticar as estratégias infantis de medir o afeto.  


De certa forma, talvez maturidade emocional talvez seja um pouco desta arte de aceitar e agradecer e desfrutar apenas os sentimentos que os outros podem nos oferecer. Exigir carinho, amor ou ternura de quem não quer ou não pode proporcionar é maldade a quem cobra ou é cobrado.      

2 comentários:

  1. Disse muito, Cassio. Belo texto, que vem de um belo raciocínio. (Tony Saad)

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