terça-feira, 10 de setembro de 2013

Se todos os problemas da vida fossem estes...

Era uma pequena celebração.  Eu, o padrinho, visitava a afilhada de um ano e alguns meses, que naquela altura da vida, já conseguia, sozinha, levara colher com alimento à boca. Depois de curtir, aplaudir e se deslumbrar com a evolução da pequena, era hora dos adultos jantarem.  À mesa, eu, o compadre e a comadre. Um pouco ao lado, a afilhada, a cadeirinha, o prato, a colher e a papinha.

Conversas em dia, gargalhadas sonoras e tudo impecavelmente arrumado sobre a toalha que rimava em cor com arroz branco e fumegante. Ao lado, uma panela de strogonoff  tão cremoso que era quase uma pasta. Mais adiante, saladas coloriam e complementavam o ambiente e a refeição.

E numa destas manobras inexplicáveis num destes momentos que a vida não oferece replay, consegui entornar a panela de strogonoff. Despejou-se a refeição sobre a toalha e o meu colo. O molho me queimou. Levantei atordoado. Não me lembro se gritei. Quando me ergui, bati com as coxas na estrutura da mesa, o que fez a panela de strogonoff ir ao chão. Lembro do barulho do metal contra o piso, quicando e deixando um rastro marrom pela sala.

Passado o surto de raiva, lembro só do cenário de guerra, da afilhada chorando assustada, batendo a colher no pratinho e dos compadres perplexos. Em questão de cinco segundos, transformei a celebração num pequeno apocalipse. Lamentei, pedi desculpas, esbravejei.

Foi quando a comadre disse em tom complacente uma frase que se tornou um dogma na minha vida a partir daquele dia. “Compadre, se todos os problemas da vida fossem uma toalha e um piso sujos de strogonoff, que beleza era viver, né!?!”.

Como uma dose cavalar de endorfina, aquelas palavras me trouxeram uma sensação de alívio tão grande, que em poucos segundos estávamos todos rindo da situação. Afinal, salvo raras circunstâncias, se todos os problemas da vida fossem o troco errado no supermercado, a demora do garçom, o encostão do carro do lado na tua porta, o esquecimento de um convite, o atraso para um happy hour, um presente desajustado, o torpedo que não veio, entre outros pequenos grandes “estresses” da vida, que beleza seria viver.

Acho que cada um sabe de exatamente o que é e o que não é um problema para si. E esta percepção parece ficar mais nítida no momento em que se escolhe no que gastar a própria energia. E foi por isto que, desde aquela noite junto da minha afilhada e meus compadres, adotei a expressão “se todos os problemas da vida fossem estes...”.


E, seja por autoajuda ou pela sensação interessante de fazer nascer um sorriso num rosto alheio tomado de constrangimento ou humilhação, minha vida parece ter bem menos problemas do que noutros tempos. 

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