terça-feira, 22 de outubro de 2013

Amor com devoção

Esta semana eu vi um amor daqueles. Daqueles que comove, enche a alma e inspira qualquer pessoa que está ou gostaria de estar num relacionamento a dois. Daqueles que só tem como explicação o gostar que nunca acaba. Daqueles que vai durar até quando um dos dois existir. Daqueles em que um gostaria de morrer primeiro para não ter o desgosto de viver sem a companhia do outro.

Este amor que eu vi é do tipo que talvez seja o mais nobre de todos os tipos de amor entre duas pessoas adultas. Esta espécie de amor é daquelas em que um tem pelo outro algo chamado devoção. A devoção não deixa de ser uma oferta um amor incondicional. Quem tem devoção, não espera nada em troca, não faz pelo retorno. Faz pela satisfação de oferecer amor.

Este amor se apresentou a mim na quarta-feira passada na imagem dum rosto feminino parcialmente desfigurado, com muitas cicatrizes, acompanhado das palavras desconexas de um homem com sequelas neurológicas. Os dois estavam à porta do prédio em que trabalho quando eu cheguei. Eles não me reconheceram. Mas eu sabia quem eram. E sabia da história comoventemente linda daquele casal na faixa dos cinqüenta e poucos anos.  


Há quase duas décadas, ele e ela, junto com o casal de filhos, formavam o típico modelo de família que aparece nos comerciais de margarina. Felicidade plena, vida farta, estável e sem ameaças. Moravam no prédio mais sofisticado da cidade, eram aprazíveis com todos.

Foi assim até aquele acidente de carro.

Ambos viram o rosto da morte. E quase o tocaram. Foram meses de angústia e uma rotina que incluía mais tempo de hospital do que na própria casa. Tratamentos complexos, sessões intermináveis de fisioterapia, bateria de exames. Sofrimento latente. Desgaste emocional. A alma em frangalhos. Ao casal de filhos, entre a adolescência e a juventude, por quem eu acompanhei parte desta história, a vida se transformou num filme. O enredo variava. Ora drama, ora terror.

Mas o final foi feliz. Foi de novela. Foi como a gente vê nos filmes e gostaria que fosse sempre na vida real. Ela, com a vaidade feminina parcialmente amputada num rosto deformado, mas lúcida. E feliz. Ele, com a mobilidade comprometida, o sistema neurológico afetado e a capacidade de raciocínio debilitada. Mas feliz. E assim eu os vi, abraçados, de braços enganchados, sorrindo um ao outro na porta do prédio. Aguardavam alguém.

Ali, naquele instante, não eram combinativos. Eram complementares.

Eu não faço ideia como era a intimidade da relação deles antes daquela pequena tragédia. Mas não consigo imaginá-los mais felizes do que na quarta-feira passada. Vê-los me fez bem. E acho que faz bem a qualquer pessoa que conhece a história deles ou alguma semelhante, com o casal unido, junto, superando a situação não só por si, mas pelo outro. Isto só acontece quando há devoção.

E a devoção só acontece quando o prazer da convivência é tão importante quanto qualquer outro prazer.  

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