terça-feira, 8 de outubro de 2013

Eu contra o mundo

Desde quando ainda não somos uma vida já competimos. Corremos desesperadamente em busca de um óvulo. E desde aquele instante rivalizar é um esporte, uma necessidade. Não paramos nunca. Consigo ou contra alguém.  Pequenas batalhas por leite materno, sono, conforto, troca de fralda, atenção, prazer, satisfação mostram que a brincadeira acabou quando nos resgataram do útero. Do nascimento à morte, a vida é uma sucessão de desafios, de sucessivos encontros com o desconhecido, como disse o professor de ética da USP, Clóvis de Barros Filho, numa entrevista que tem circulado pela internet.

Pela condição intrínseca de competição, nossa existência se inunda de sensações variantes, que moldam nossa personalidade. E são estas aptidões advindas da habilidade de lidar com a competitividade as nossas referências na concepção de mundo. Conforme desenvolvemos e, principalmente, conhecemos nossas capacidades e fragilidades, nos posicionamos em relação a tudo e todos.

É lógico que a competição foi um dos elementos mais importantes que a humanidade chegasse até aqui. Foram os desejos e as necessidades individuais de superar-se e superar a alguém que proporcionaram a evolução coletiva intelectual e física, através do aprimoramento e da inovação, por exemplo.  


E se a competição está no âmago do nosso progresso intelectivo, me parece também que este instinto de rivalizar é também uma das raízes da degradação da nossa moralidade. Pelo ato de vencer, crescer, emergir, desenvolver, consumir, somar, ostentar, superar, deixamos de ser humanos e passamos a ser um outro tipo de ser.

O melhor carro, a casa mais cara, o cargo mais poderoso, a mulher mais gostosa, o homem mais bonito, a jóia mais rara, o vinho mais excêntrica, o esmalte mais particular, são só algumas das incitações da economia de mercado à nossa ânsia por competitividade. Sem que percebamos, ao redor de nós se forma uma campanha invisível para que nossa autoestima se alimente da inveja e da cobiça dos que estão abaixo.  O outro não precisa ser um fracassado, mas que esteja um nível abaixo por questão de segurança.  

E devido à esta atmosfera de estímulos, a quem a ânsia de ser melhor ou maior transborda a alma, as outras pessoas são degraus, inimigos ou alça de mira. Do contrário, a quem a ânsia de ser melhor ou maior tem o tamanho da própria alma, as outras pessoas são só parte da paisagem ao longo do caminho.

Não sei se é uma receita, mas eu percebo que é mais feliz quem compete apenas consigo. Quem rivaliza em tudo contra todos vai estar eterna e inevitavelmente em busca do dinheiro, da beleza, do status, da inteligência ou da habilidade física que alguma outra pessoa já tem. E mesmo quando conseguir tudo e alcançar o além do sonhado, vai continuar a explorar a eternidade a procura de algo que não sabe muito bem o que é. Mas que precisa adquirir. O nome disto é paz de espírito.  

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