quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O Luís e a mãe dele

Hoje vou escrever sobre o Luís. Sei pouco dele. Muito pouco. Mas falo agora sobre o que percebi durante os escassos minutos de nossa conversa, na última terça-feira. Nosso diálogo somou poucas palavras. Mas foi o suficiente para ver que ele era um garoto diferente. Não só diferente. Mas diferenciado.

Acredito que o Luís tenha 15 anos. No máximo 16. Imagino que deva fazer suas malandragens, cultivar inconsequências e embromar preguiças. Se assim não fosse, não seria um adolescente. Enquanto falava comigo, a insegurança do tom de voz, o sorriso constrangido e os gestos indecisos retratavam um adolescente típico numa situação atípica.

 Então, com dois punhados de sílabas, quatro cédulas, duas moedas e uma atitude, o Luís me comoveu. Não foi nada extraordinário. Mas foi algo que nunca vi nenhum outro menino da idade dele fazer. 

Na condição de quem já teve esta idade e sabe que cada trocado é uma pequena fortuna quando se depende do dinheiro dos pais, o Luís me surpreendeu ao aplicar suas quatro notas de R$2,00 e mais duas moedas de R$ 1,00 num livro. Afinal, aos 16 anos não é fácil depositar o valor equivalente a quatro refrigerantes ou cinco pastéis, algumas guloseimas ou mesmo o início de alguma reserva econômica, num calhamaço de páginas com crônicas.

Pois o Luís fez isto. E muitos outros adolescentes fizeram, adquirindo o Palavraneios, sobre o qual eu acabara de falar na Feira do Livro na escola onde estudam. Só que o Luís não comprou a obra pra ele. Era um presente para alguém especial. Envergonhado, falou com os lábios pressionados de quem faz a confissão:

- Eu queria que tu escrevesse a dedicatória pra minha mãe. Têm umas coisas aí que eu acho que ela vai gostar de ler. O nome dela é Marilu. 

Ali, sentado à mesa, após escutar o pedido, não tive como não pensar que em meio a tantas demonstrações de individualismo exacerbado, busca incessante por valores efêmeros e ostentação pessoal nas redes sociais nestes nossos tempos, ver um garoto de dezesseis anos investir R$ 10,00 em um livro para presentear a própria mãe, e ainda pedir dedicatória, foi um destes momentos que me fez crer que ainda há razões para acreditar.


Na linguagem invisível e subliminar das atitudes, ao entregar o livro à Dona Marilu, mãe dele, o Luís dirá em silêncio “lembrei de ti”, “eu te amo” e tantas outras coisas que só os dois entenderão.

Quem é homem sabe o quanto é difícil a relação com a mãe no período da adolescência. Elas não nos entendem. Elas não nos compreendem. Então, geralmente mantemos o respeito, mas não conseguimos consolidar, nesta fase da vida, uma admiração por quem nos tolhe tantas coisas que buscamos viver.

Mas este não é o caso do Luís.  Nem da Dona Marilu. Afinal, as mães são as primeiras mulheres que nós homens aprendemos a amar. E um homem que consegue demonstrar seu amor à própria mãe, em gestos ou palavras, geralmente é um homem que sabe, mesmo sem saber que sabe, que o coração não só bate e pulsa, mas também sente.  

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