terça-feira, 19 de novembro de 2013

Calabouço da alma

O calabouço é o andar mais baixo de um castelo. Normalmente encravado no subsolo, sem luz natural, com pouca ventilação. E com a alma não é diferente.

No calabouço da alma está o que não se queria que houvesse acontecido.

No calabouço da alma está o que não se quer que venha à luz. O erro, o segredo, o dilema, a fraqueza, a maldade, a frustração do pretérito estão no calabouço da alma. Lá fica trancafiado todo o passado que possa ameaçar a promessa de paz futura. Promessa. Só promessa. Sem garantias.

No calabouço da alma só tem passado. Passado preso. Passado amordaçado. Passado que agoniza. Passado que aconteceu sem nunca deixar de existir. No calabouço da alma está tudo que represente medo. No calabouço da alma está tudo que se define por trauma. No calabouço da alma está tudo que desperte a raiva.

No calabouço da alma só tem tristeza. Tristeza nata. Tristeza cultivada. Tristeza adquirida. Tristeza imposta. Tristeza sem culpa. Tristeza intencional. E até tristeza que já foi felicidade.

E no reino da própria alma, cada um é a majestade que delibera o destino daquilo condenado ao calabouço. Há os que mantêm o calabouço escuro, trancafiado e raramente o visitam. Há os que mantêm pouca luz e o aparecem por lá vez que outra para verificar a situação. E há os que vão todos os dias verificar o ambiente iluminado e amplamente vigiado, afim de certificar-se de que nenhum medo ou trauma tenha morrido ou fugido.  

Como a natureza do ser humano é, normalmente, evitar a tristeza e buscar a felicidade, acredito que torna-se uma escolha natural a primeira opção, em que o calabouço fique entregue à escuridão. Acho sim que é mais seguro, afinal toda tristeza se nutre das revisitas que se faz a ela.


Mas independente da maneira como cada um gere seu calabouço, acredito que não haja erro maior do que usar alegrias e felicidades que a vida oferece como tranca ao calabouço. Vejo muitas pessoas que na ânsia de não deixar que os fantasmas do calabouço escapem, usam os próprios sonhos para vigiar e manter os traumas aprisionados. Fazem isto sem perceber que esta não deixa de ser uma maneira de manter os sonhos aprisionados.

E assim, os próprios sonhos perdem a razão da existência. Passam a ser só uma fração de futuro, presa no calabouço do presente, cuidando de medos do passado. 

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