quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sobre a carência

A carência é o astigmatismo do coração. Quem sofre de carência padece com a percepção distorcida das emoções próprias e alheias. Desejo é paixão. Paixão é amor. Carinho é amor. Empatia é desejo. Desejo é amor. Prazer é paixão. Insatisfação é raiva. Negação é ofensa. Saudade é amor. E por aí vai.

Quem sofre de carência convive com o arrependimento, dorme de conchinha com a culpa e se alimenta do próprio prejuízo moral, causado pelo não discernimento de situações de vida que pareciam nítidas. Pareciam. Só parecia. Quem sofre de carência vê o mundo por miragens. E quando o que parece nunca é, a insegurança é uma conseqüência natural.  

A quem sofre de carência é comum que se torne insuportável a convivência consigo mesmo. Então, sai-se à procura de alguém. Precisa-se de alguém. Sempre. Seja para o amor.  Seja por companhia. No mundo, ninguém se basta. E ninguém basta para quem sofre de carência.

O carente é um devorador emocional. Não sabe o que procura. Logo quando encontra o que deseja não percebe. É uma triste rotina. Alguém aparece com a estampa da felicidade e se despede com o rosto da decepção. Euforia e desilusão se revezam na posse da alma de quem sofre de carência.

Há quem não saiba que sofre de carência. Ou faz de conta que não sabe. Quem não conhece alguém que diz que não precisa de ninguém e vive muito bem sozinho, mas fica madrugadas adentro em redes sociais, bailando os dedos pelo teclado, buscando numa janela de bate-papo algo que substitua um abraço, um cafuné ou um sorriso presencial?

Eu sou dos que acreditam que vivemos uma epidemia generalizada de carência. Creio que a causa se deve principalmente à ocultação das emoções, principalmente as positivas e verdadeiras. E neste ponto vale a pergunta: de que servem sensações positivas e que inundam o corpo de dopamina se não são manifestadas? De que adianta guardar amor, carinho, paixão? De que servem as borboletas e as pedras de gelo no estômago? Por mais que pareça piegas, normalmente esquecemos que este tipo de demonstração se multiplica de forma exponencial.    

Casados carentes, solteiros felizes. Solteiros carentes, casados felizes. Tanto faz. A carência é particular. Não depende de estar com alguém. Solteiros naturalmente buscam na rotatividade sexual uma compensação e/ou solução paliativa para a solidão. Entre casais, onde a convivência tem mais tolerância do que satisfação, a infidelidade ou a resignação são as os recursos mais comuns.  


E como solucionar a carência? Como oferecer e desfrutar da satisfação de uma companhia? Não sei. Só sei que quando nem quem habita o corpo aprecia a própria existência, exigir ou desejar que outros o façam parece um despropósito.  

2 comentários:

  1. Olá! te encontrei entre idas e vindas e cá estou para te seguir. posso?
    Acho que me considero carente sem carência, pois ainda não sei como solucionar esta questão. enfim,não espero muito das pessoas, espero mais dos meus personagens que são os que me fazem companhia,rsrs...
    Abraços
    Lhu Weiss

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  2. Oi! Seja bem-vinda! Obrigado pelo prestígio. Quanto aos personagens, talvez seja mais fácil, já que todos eles tem um pouco de ti. Abraço!

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