quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Vendedores de solidão

Aconteceu com ela. Poderia ter sido com ele. E está acontecendo neste exato momento em milhares de janelas de bate-papo do Feicebuque, numa conversa de Whatsapp ou na vibração de algum celular.    

Havia diversão. Era só por diversão. O sexo era de qualidade. Mas não havia vínculo. Relacionamento? Ele hesitava. Ela não fazia questão. Duas ou três vezes por mês se encontravam. Oi! E aí, quer? Quero! Beleza! Em fim de festa também acontecia. Não sabiam nada um do outro. Conversavam pouco. Era sexo. Só sexo. Eram “peguetes”.  

Então ela conheceu alguém. Alguém que se preocupava com ela, chamava pra conversar no Feicebuque. Enfim, era um “querido”. Ela se permitiu. E se permitiu até ir a uma festa com o novo pretendente. Pois o “peguete” estava lá. Não deu outra. No primeiro instante sozinha, o “peguete” chegou falando no ouvido. Ela pediu pra ele ir embora. Ele não foi. O “querido” retornou do bar e percebeu o que era nítido. Constrangimento coletivo. Menos mal que o “querido” era um lord e não chamou o “peguete” pra briga. Ela saiu da balada de mãos dadas com o “querido”, curvada de vergonha e com o celular carregado de torpedos do “peguete”.   

Explicou a situação ao “querido”, que, com querideza, compreendeu. Afinal, no mundo dos solteiros em que todo mundo tem um rolo, ninguém está livre de algo assim acontecer.

Mas o “peguete” não desistiu. Ficou de campana. Atirava a esmo, com torpedos noturnos e madrugadores. Nas sextas-feiras era artilharia pesada. E o “querido”, que agradava, mas não emocionava, bailou na curva.  Sozinha, voltou a ficar com o “peguete”. 

Ficaram por alguns meses. Ela se permitiu alguns rolos paralelos e sabia que ele também tinha outras. Afinal, havia diversão. Era só por diversão. Estava ela assumidamente solteira. Assim foi até que ela e o “peguete” começaram a se afastar. Os encontros foram se escasseando. Os torpedos cessaram.

Havia mais de três meses que não se viam quando ela se apaixonou. Em poucas semanas estava namorando. Então, à noite dum dia qualquer, alterou o status no Feicebuque: em um relacionamento sério com Fulano de Tal. Minutos depois, o “peguete” já ressuscitava por uma mensagem inbox pelo próprio Feicebuque. Questionava a novidade, a convidava para encontros esporádicos, pois a química deles era maior que tudo, lembrando que possuía um carinho especial por ela. Enfim, se oferecia para ser um amante. A fim de evitar surpresas futuras, contou a situação ao novo amor, que relevou a situação. No dia seguinte pediu ao “peguete” que desaparecesse.

Mas ele insistiu. Ficou de campana. Torpedeou. Bombardeou. Ela não respondeu. Depois de um mês, após uma investida intensa, ela enviou uma mensagem, sendo elegantemente ríspida.  Agradeceu os momentos passados e ordenou que ele não enviasse mais mensagens. Desde então, segundo ela, o “peguete” sumiu. E ela vive em paz com o novo amor. Pelo que sei, a história deles não teve um final, e segue feliz.

Gente como o "peguete" é um tipo de gente que comercializa muito da solidão, angústia e padecimento silencioso que se vê por aí. É alguém que não soma. Quase sempre subtrai. E sempre atrapalha. Porque atrapalhar é o objetivo. Por egocentrismo e necessidade de autoafirmação desenvolveu um avassalador sentimento de posse. E tão somente posse. Não é ciúme porque não há afeto. Não quer. E não aceita que outros queiram. 


Quem frequenta o mundo dos solteiros, longa e/ou intensamente, sabe do risco de, na ânsia da carência ou no embalo da promiscuidade, permitir que algumas pessoas assim entrem na atmosfera pessoal, sem que possam ser expelidas no futuro. Estarão sempre ali, aniquilando qualquer situação agradável que não os tenha como protagonistas ou integrantes.    

Como saber quem são estas pessoas? Nos momentos tristes, não aparecem para proporcionar uma pequena alegria, uma grata surpresa ou um grande conforto. Nos momentos felizes, aparecem para proporcionar uma pequena angústia, um amargo desgosto ou uma grande tristeza. 

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