quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Estética escravocrata

No início desta semana uma amiga postou no Feicebuque um documentário premiado em diferentes continentes, cujo link segue abaixo, no final do texto. Em quase noventa minutos de entrevistas, estatísticas e reflexões, Miss Representation aborda a aceitação feminina à escravidão da estética e como a mídia influencia na manutenção e a ampliação desta concepção em todas as classes sociais.

Para o público feminino, a produção é um ótimo instrumento para que cada mulher se questione quanto ao seu papel na sociedade atual. Para os homens, um exercício interessante para o entendimento do prisma feminino a respeito de alguns conceitos sociais cujos causadores somos nós. O documentário tem a participação de dezenas de mulheres, de todas as faixas etárias, desde estudantes adolescentes até ícones norte-americanos como Condolezza Rice e Jane Fonda.

Considerando que grande parte do comportamento brasileiro é um espelho do modelo de vida norte-americano, me permito crer que grande parte das estatísticas apresentadas ao longo do documentário equivale à realidade tupiniquim. Eis alguns dos dados apresentados em Miss Representation e que, acredito, devem ser próximos da realidade tupiniquim.
·         78% das mulheres sentem-se infelizes com o corpo aos 17 anos;
·         65% das mulheres sofre de algum distúrbio alimentar;
·         Entre 2000 e 2010 duplicou o índice de depressão entre as mulheres;
·         Entre 1997 e 2007 triplicou o número de cirurgias plásticas.

Estes números são só alguns dos expostos na obra, mas são suficientes para a percepção de que a maioria das mulheres, numa condição que lhes é imposta, se enxerga a partir de três referências: juventude, beleza, sexualidade.

E por que isto acontece? A resposta é simples. Devido à imposição de conceitos masculinos, já que são homens que detém o poder, tanto político quanto econômico. Então, é com base na perspectiva masculina que o mundo se desenvolve, sempre respeitando a ótica capitalista. Economicamente, o culto à estética vende. Socialmente, a preocupação feminina com a estética desvia a busca destas por desenvolvimento cultural e questionamento da predominância dos conceitos masculinos.

Às mulheres, uma pergunta baseada no documentário. Qual o percentual do orçamento mensal gasto com shampoos, condicionadores, cremes, tinturas, serviços de beleza, produtos de maquiagem, esmaltes, roupas da moda, acessórios, academia, alimento ou algum outro componente que tenha relação com a estética? E qual o percentual do orçamento mensal gasto com itens que trabalham a intelectualidade ou que ofereçam algum tipo de satisfação pessoal, dissociado da modelação do próprio corpo ou a postergação da juventude?

A pressão existente às mulheres quanto à estética é semelhante à existente aos homens quanto ao dinheiro. Neste sentido, por mais que se alcance um patamar confortável, a satisfação plena é utópica e sempre haverá uma comparação insatisfatória, geradora de frustração. Ou seja, buscar os padrões estéticos e financeiros é uma receita para a infelicidade.  

Finalizando, acho que eles e elas concordam que, tanto o dinheiro quanto a estética podem até ser atrativos, mas não são o fator principal quando se busca uma pessoa que seja parceira para a vida.

No senso comum, os homens querem as lindas e elas escolhem os ricos. A beleza feminina pode chamar atenção, mas não se sustenta, assim como a condição financeira masculina. Salvo exceções, na cotação de virtudes, todo homem abre mão de um pouco de beleza em troca de um bom papo, um sorriso que conversa e uma companhia que dê sentido à vida. Salvo raras exceções, na cotação de virtudes, toda mulher abre mão de um pouco da estabilidade financeira em troca de uma boa conversa, atenção, respeito e carinho.

A quem interessar, segue o link do documentário:

http://vimeo.com/72015293

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