quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Os netos que não chegam

Os filhos estão nascendo mais tarde. E este atraso na fabricação de netos tem causado um desconforto nas gerações que ensinaram os primeiros passos a quem hoje está na fase adulta da vida.

Se torna muito comum que pais e mães na faixa dos 60 anos tentem esconder ou demonstrem deliberadamente a ansiedade em ver a continuidade da prole que colocaram no mundo. E às vezes, mesmo quando a descendência já providenciou a posteridade, a maneira como as crianças e adolescentes se portam é motivo de angústia ou preocupação.   

É por isto que, em termos de comportamento, talvez nunca tenha sido tão complicado ser adulto como nos dias de hoje. Só quem tem entre 25 e 45 anos sabe o significa ter sido moldado na infância para um modelo de sociedade e agora ter de adaptar-se a outro, totalmente diferente, com a valorização maximizada das relações de consumo, elevação das necessidades individuais e o desenvolvimento exponencial dos aparatos tecnológicos que nos cercam.

O mundo tem girado mais rápido. Sobra vontade. Falta tempo. E poucas coisas retratam tão bem esta complexidade quanto à relação que imputam à nossa geração quanto à paternidade/maternidade.    

Quem tem mais de 30 anos e é solteiro(a), sem filhos, já ouviu, inevitavelmente, alguma pergunta ou insinuação irônica sobre o tema. E seja qual for a resposta, independente do contexto, sempre haverá algo para rotular o questionado(a) como “fora do esquadro”. “Nada ainda?”. “Vai ficar para titio(a)”; “Só quer galinhar”; “Não cresceu”; “É egoista”; “Só pensa em trabalho”.  

A postergação do ato de ter filhos é uma consequência natural da necessidade de mais trabalho para suprir o que se torna imperativo e também para que esta criança gerada tenha as melhores condições de conforto e sobrevivência possíveis. Assim, em regra geral, pai ou mãe jovem é inconseqüente. Pai ou mãe adulto, egoísta.

No caso dos casais que já possuem filhos, independente da faixa etária, também é inegável o crescimento da participação dos avós junto da educação dos netos, seja psicológica, logística ou financeiramente. E assim, conforme prestam este favor, é natural e justo que se sintam responsáveis pelos filhos de seus filhos e acabem opinando ou estabelecendo condições conforme seus valores. E lá estão os adultos de hoje, fazendo o papel de algodão entre os cristais, em meio ao tiroteio de duas gerações separadas por quase meio século.

Há ainda quem não queira ter filhos, uma opção muito comum e merecedora de respeito nos nossos tempos em que é cada vez mais nítido que a possibilidade de envelhecimento em meio à solidão não se esvazia no nascimento de um descendente. Por vezes, a torna até mais profunda, já que amor e gratidão são sentimentos antagônicos às condições de cobrança e imposição.

Enfim, há muitos elementos e acredito que ninguém saiba exatamente o que estará por vir com a ampliação da convivência entre gerações distintas, já que a longevidade só se expande. Mas me atrevo a citar três redundâncias esquecidas: 
  • Ao longo da história, todo mundo, na juventude ou na idade adulta, em algum momento, precisa decidir se viverá a vida que sonhou para si ou a vida que os pais sonharam, assumindo as conseqüências da escolha; 
  •  Quem não decide, não vive uma vida inteira,  mas sim duas metades;  
  •   Se a decisão é inevitável, que aconteça o mais cedo possível; há mais tempo de ir atrás dos sonhos e fazer com que ela tenha momentos inesquecivelmente felizes. 

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