sexta-feira, 7 de março de 2014

A rotina de 8 de março

A cada oito de março, a rotina.

É como se brotasse ciclicamente do cromossomo Y uma licença poética para que homens possam  andar com ramalhetes de flores pelas ruas sem se sentirem ridículos, falar de amor com a boca e os olhos sem se tornarem carentes, usar alguma metáfora sem parecer um poeta sofrível, enxergar parcialmente o mundo pelo prisma feminino sem perda de masculinidade.


A cada oito de março, homens são regidos pelas flores. Eles vêem outros homens carregando flores e sentem-se pressionados. Enxergam as colegas de trabalho recebendo flores e sentem-se mais pressionados. Então, telefonam ou vão até uma floricultura. E daí se desencadeia uma outra rotina. Esta, sempre constrangedora. Buquê ou arranjo? Rosas, gérberas, flores do campo, tulipas, orquídeas. Quanto é um buquê de rosas? De que cor? Existe mais de uma cor de rosas?  Tudo isto por um buquê de rosas? Sim, vermelhas. Ok.

A cada oito de março, mulheres se envaidecem ou se frustram com as flores que chegam ou não, com a janta especial que acontece ou não, com a declaração de amor e reconhecimento que acontece ou não. As agraciadas sentem-se felizes e reconhecidas. As esquecidas, lamentosas. Algumas chegam a repensar a relação. Neste caso, o grau de satisfação ou lástima é diretamente proporcional ao que os namorados e maridos das amigas, colegas ou vizinhas fizerem. 

A cada oito de março, mulheres tratam-se como gostariam de ser tratadas sempre. Todas se felicitam, independente de roupa, cabelo, maquiagem, porte físico ou comportamento. É outra licença poética que surge e permite aos dois cromossomos X uma empatia universal, em que todas reconhecem na felicidade e na dificuldade alheias um pouco ou muito das suas.

A cada oito de março, a mãe solteira que cria sozinha um ou mais filhos sai do anonimato e torna-se símbolo da opressão masculina, as mulheres de agora celebram a vida melhor e mais livre que de suas mães e avós, estatísticas com os números da violência doméstica são relembradas, os números que mostram a disparidade salarial entre mulheres e homens são revisitados.

A cada oito de março, o mundo, por 24 horas, tenta torna-se mais igual em termos de gênero, mas não satisfaz a todos. Feministas radicais dizem que a necessidade de haver uma data específica é um emblema da ótica masculina e tirana de mundo. Machistas dizem que todos os outros 364 dias do ano são dos homens.

A cada oito de março, por mais ínfima que seja a intensidade e a profundidade, mulheres e homens pensam e repensam o significado da mulher no mundo atual.

E isto é o principal, desde que conclusões virem atitudes. 

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