quinta-feira, 20 de março de 2014

Sobre o assédio

Presenciei esta cena tempos atrás. Retrata um assédio homem-mulher. Mas poderia ser o inverso.

Dia destes eu aguardava numa concessionária de veículos em Porto Alegre quando chegou um rapaz em busca de atendimento. Uma atendente bonita, com um traje(sem uniforme) tão elegante quanto insinuante foi até ele. Então, com um sorriso de simpaticidade no rosto, ela pergunta:

- Oi! Tudo bem?

E ele responde maliciosamente, olhando nos olhos dela:

- Melhor agora!

Ela sorri e complementa:

- Melhor agora? Hahahaha!!!

Enquanto ri e se sente lisonjeada, completa:

- Finalmente, hein!  Há quanto tempo te chamo para vir até aqui e tu não aparece?

Sorrindo, ela convida o cliente para se dirigir à mesa, que a segue olhando deliberadamente para as formas da moça.

Longe do meu campo de audição, percebo que os dois conversam e vejo algumas gargalhadas. Desde o início, a postura e os gestos dele são de assédio.  A dela, de satisfação, sem incômodo. Não fecha o rosto. Não fica séria. Deixa a situação em “banho maria”.

O atendimento termina e quando passam por mim, ainda escuto ela explicando que agora ele tem o telefone dela(não sei se o celular ou o convencional) e se coloca à disposição para o que ele precisar. Os dois se cumprimentam com sorrisos. O olhar dele é de assédio. O olhar dela é de assediada. Então ela passa a mão no cabelo e vejo a aliança na mão direita.

Saí da concessionária me perguntando: quando um assédio indevido se concretiza, a culpa é de quem assedia ou de quem se insinua ou deixa-se assediar? Não cheguei a nenhuma conclusão.  E acho que é o tipo de pergunta em que há resposta para todos os tipos de pensamento.

Numa mesa de bar masculina, o rapaz vai comentar da vendedora. Vai falar com os amigos e dizer que ela deu abertura. Dependendo da intimidade da turma, vai jogar o nome dela no Feicebuque e mostrar  as fotos. Entre os camaradas, a teoria mais aceita será de que o rapaz está cumprindo o seu papel de macho, afinal é solteiro e não deve satisfação pra ninguém. Ela que estava dando mole e não impediu a cantada. Se fez isto é porque não está satisfeita em casa ou gosta de ser bajulada. No final chegarão à conclusão de que vale dar uma insistida ou ficar cercando porque qualquer hora acontece. É questão de tempo, dirá ele, enquanto entorna um caneco de chopp.

Numa mesa de bar feminina, ela vai contar a situação às amigas. A hipótese mais aceita será a de que homem é tudo trouxa e se deixa seduzir por qualquer tipo de situação. Ela vai dizer que não gostou, mas levou de boa porque é cliente e ela precisa vender. Então uma maioria vai dizer que do jeito que estão as metas, valem todas as armas. Alguma vai perguntar se ela fez a venda. Lá pelas tantas, outra vai dizer que tem uma saia de “fechar contrato”. No final, vão chegar à conclusão de que ela não tem culpa, afinal só estava fazendo o trabalho dela. E além de tudo, qual o mal em massagear o ego?

E qual a opinião do marido da vendedora? Não faço ideia, mas acho que seria diferente das duas mesas.  Mas ninguém quer saber. Ele é só o marido. E nem sabe que tudo isto aconteceu.   

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