sexta-feira, 28 de março de 2014

Sobre o desamparo

Uma história a dois começa a terminar de várias maneiras. Uma das mais comuns é quando uma das partes cultiva o desamparo, que também atende por indiferença, abandono ou menosprezo. Geralmente o desamparo surge na dificuldade de uma das partes do casal em equilibrar a vida a dois, o trabalho e a individualidade. E normalmente isto acontece do lado masculino. 

Na correria do dia a dia, por vezes esquecemos que cada parte deste trinômio serve de sustentação às outras duas.  O vínculo entre elas me parece tão forte quanto sensível.

Lógico que nem toda ausência é desamparo. Quando o motivo é trabalho, normalmente a compreensão é mútua. Afinal, um esforço a mais em nome dum futuro mais confortável tem até uma licença poética. 
E daí, cada casal sabe dos seus limites e até que ponto acumular patrimônio é tão ou mais importante do que a convivência diária.

Desamparo só é abandono, indiferença ou menosprezo quando a razão  da lacuna é algo que beneficia só uma das partes e não o casal. Dia destes, ouvi uma história típica.

O cara tem uma rotina estressante. Um dos vícios que se permite é o videogame PS3. Joga compulsivamente até a madrugada, inclusive online. Seguidamente mergulha na diversão e deixa a esposa sozinha. Certa noite, com fones de ouvido, não percebeu que a bateria do celular chegou ao fim. A esposa esperava por ele na universidade após um dia pesado de trabalho e aula. Então a moça não teve outra opção senão ligar para um amigo do casal que estava online na rede de jogos. Este avisou o esposo que, só então, foi buscá-la naquela noite fria de agosto. O que o fato diz? Você não é prioridade e meu vídeo-game é mais importante ou interessante que você. O caso, lógico, é extremo e não serve de parâmetro.

É histórico a reclamação delas sobre a falta de atenção deles, já que ao prisma feminino o convívio sempre teve um peso maior na relação do que ao masculino. A raiz deste juízo de valor possivelmente esteja na forma mais afetuosa e protetora com que os pais tratam as meninas, fazendo com que a companhia gere a sensação de proteção e carinho.  

Talvez este seja um dos motivos pelos quais, ao serem preteridas diante de um churrasco, uma partida de futebol ou outra atividade que traga satisfação a ao marido ou namorado sem que estejam inseridas no contexto, as mulheres normalmente questionem o tamanho, a qualidade e a intensidade do sentimento alheio.  Fazem uma comparação inconsciente com as referências afetivas que tiveram na infância. Então, começam a semear as inseguranças, física e emocional, que geralmente frutificam na forma do desamparo.


E o que pode ser feito neste sentido? Se a ausência é inevitável e aceitável, a elevação da qualidade nos momentos a dois remedia, ameniza e até compensa a lacuna. Se é opção e/ou preferência constante e a solidão incomoda, talvez o melhor seja repensar. Afinal, não faz nenhum sentido sentir-se só quando se tem alguém.  

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