terça-feira, 6 de maio de 2014

Amor e história de amor

Uma das principais sustentações de uma história a dois é o orgulho que se tem da história a dois. Não que seja uma garantia de eternidade ou felicidade, mas beira o óbvio que o casal orgulhoso da própria história tende a zelar cada vez mais pela relação.

Este orgulho, quando mútuo, gera entre as partes um desejo constante de criar novos elementos que tornem a trajetória da dupla ainda mais diferenciada. E sempre com significado para os dois. Cada fato, dificuldade, alegria, viagem ou situação inusitada vivida positivamente por um casal gera pelo menos três conseqüências: fortalece o vínculo, aumenta a responsabilidade pela outra pessoa e alimenta o medo da perda do conforto emocional.

Por isto, sou dos que acredita que a mistura aleatória de empatia, instinto, afinidade, admiração e outras sensações é que faz nascer aquela compulsão inicial entre as partes. Mas não se passa da paixão a uma história de amor sem empenho. Até que ponto vale o esforço da transformação? Daí depende do quanto bate cada coração.   

Quando a conversa entra neste território de ”querer fazer a história dar certo”, sempre lembro de um amigo. Jornalista, bem sucedido, perto dos 40 anos, morava em Brasília. Era feliz, mas se sentia um burocrata da vida. Então planejou e executou uma mudança radical. Anunciou à empresa a saída com seis meses de antecedência, matriculou-se num curso semestral de inglês na Austrália e já buscava possibilidades de postergar a permanência para um ano. Ou mais. Enfim, planejou a viagem e deixaria que o acaso cuidasse do resto.

O rapaz só não contava que o acaso tinha outros planos pra ele. E aqui no Brasil.
Enquanto se preparava pra ver cangurus e aprender a surfar, foi flechado pela Michele, de Belo Horizonte. A coisa foi tão fulminante, que ele já cogitava adiar ou mesmo cancelar a viagem dos sonhos.  O sonho passou a ser ela. Foram semanas de dilema. Conversaram. E ele foi. Tempos depois, nas férias, ela também. Seis meses era muito tempo pra tanta saudade. Quando ele retornou ao Brasil, decidiram morar em Belo Horizonte. 

O final da história deles não existe. Ainda estão no desenvolvimento da trama. E pelo que percebo, protagonizarão muitos capítulos. O próximo e um dos principais acontece no próximo dia 17, quando os dois se casam. Daqui do Sul imagino que terão um futuro condicionado ao nome da cidade que escolheram para viver. Afinal, como seria diferente quando, já de largada, ele se dispõe a desistir dum sonho e ela se propõe a atravessar o mundo em troca de alguns dias de companhia?

O amor até surge espontaneamente. Mas uma história de amor não. Ela precisa ser construída. E acho que ainda não inventaram tijolo melhor para construir uma história de amor do que a vontade mútua de estar junto de quem se ama. 

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