terça-feira, 10 de junho de 2014

Eu, tu, nós e o verbo namorar

Namorar já foi mais simples. E mais complicado. Mais simples pelas pessoas. Mais complicado pelas circunstâncias.

Até pouco tempo, namorar era o ato de cultivar saudade. Parte do prazer de um namoro estava na torturante espera pelo reencontro, amenizada na satisfação da companhia. Amar era esperar. Amar era sofrer por esperar. Os pais eram vigilantes. A comunicação era rara e cara na época em que um telefone preso à parede valia o mesmo que um carro. E nem mandava mensagem de texto.  

Enfim, devanear era o ofício de quem tinha a posse, mas não o domínio do próprio coração. E todo devaneio amoroso daquela época inevitavelmente tinha o enredo tramado em torno da pluralidade de um pronome: nós. O objetivo era o nós. A necessidade era o nós. Era a nossa história, nosso sonho, nossa vida, nossa casa. Bilhetes, recados e demonstrações de amor eram pessoais. Era a era em que a alegria do vínculo andava de mãos dadas com o orgulho do pertencimento. E todo esforço individual estava em deixar de ser eu para sermos nós.

Pois o contexto inverteu-se.

Nos tempos de hoje, as circunstâncias facilitaram e as pessoas é que complicaram o ato de namorar. Liberdade sexual e comunicação farta deveriam formar o oásis de qualquer casal, mas acabaram por se colocar no âmago das brigas e discussões. As redes sociais e os aplicativos de mensagens instantâneas viraram plataformas de investigação e monitoramento. Vivemos um tempo em que se torna mais comum exigir a foto para comprovar o lugar que o outro diz estar, do que um selfie só para amenizar a saudade.

Na nossa sociedade individualista, o cúmulo da carência e do egocentrismo está nas crises de relacionamento provocadas pelos vácuos momentâneos no Whatsapp, Skype, Feicebuque, Tango ou ferramenta semelhante. Por que não respondeu? Ficou sem bateria? Justo hoje? Onde tu tava? Porque desligou o GPS do telefone?

Hoje, amar é não esperar. Pelo contrário. A demonstração do amor está no imediatismo da disponibilidade. E todo devaneio amoroso inevitavelmente tem o enredo tramado em torno da pluralidade de outro pronome: eu.


O nós deu lugar a dois “eus” e suas derivações possessivas e demonstrativas. Minha felicidade, meu sonho, minha vida, meu quarto, meu closet, meus sapatos, meu carro, minha liberdade, meus amigos, meu futebol, minhas unhas.  E assim, o namoro, aos poucos, deixa de ser uma junção de vidas. Em vez da soma, há uma relação de troca. Tu atendes o meu eu e eu atendo o teu eu. E quando há muito eu pra pouco nós, a conjugação de qualquer verbo perde o sentido, inclusive o namorar.      

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