sexta-feira, 18 de julho de 2014

Sobre o favor

Favor é apreço. É carinho. É confiança. É amizade. E até amor. Conceder um favor é colocar-se no lugar do outro. Receber um favor é saber que alguém se colocou na nossa condição.

Todo favor só é favor quando é espontâneo. Solicitado, pedido ou exigido não é mais favor. Daí é serviço, dever, compromisso. O favor que é favor acontece pelo prazer da satisfação.  Se gerar alegria, melhor. Se causar felicidade, excelente. Favor que é favor é fundamentalmente do bem. E faz sentir-se bem quem pratica e quem recebe.

Mas todo favor tem um medo: tornar-se uma obrigação.  

A obrigação é a escravidão do favor. É por isto que todo favor tem fobia à rotina e detesta repetição. Um favor freqüente é certeza  de uma futura frustração.

Um exemplo simples, mas clássico: o namorado que eventualmente faz o favor de abrir a porta do carro para a namorada, quando faz, recebe sorrisos e olhares apaixonados. O namorado que faz o favor diário de abrir a porta do carro para a namorada, quando não faz recebe um olhar de desconfiança do desamor. A namorada que eventualmente concede a quarta-feira ao churrasco do namorado com a turma de amigos, recebe agrados múltiplos. A namorada que sempre concede a quarta-feira ao churrasco do namorado com a turma de amigos, quando não concede é uma chata.  

É por isto que favores gostam de inovar e aparecer em lugares diversos. Se for um ambiente discreto, melhor. Favores autênticos e genuínos não gostam de ostentação. Aceitam foto ou narrativa só se for de estímulo ao surgimento de novos favores. Favor que se preze se deslumbra com sorrisos, se emociona com suspiros. E só. É o que basta.

Há quem ache que o favor se alimente de gratidão. Pura mentira. Favor que é favor se nutre da satisfação dos envolvidos. Favor que é favor não gera dívida. Nem de gratidão. Esta ideia de dívida é um dos motivos pelo qual aquele favor original, com o DNA da bondade, tem se tornado cada vez mais raro. As pessoas estão desaprendendo a prestar e receber favores. Em vez disto, desenvolvem a habilidade de cultivar interesses. E daí favor vira negócio. 

Outro motivo para o desaparecimento dos favores autênticos é a falsa crença de que a felicidade é apenas um direito e não também uma busca. Isto faz proliferar a ideia da obrigação da generosidade, numa conta que não fecha. Num ambiente de colaboração, de que adianta a minha realização se ela surge da tua contrariedade ou insatisfação? 


Gentileza gera gentileza. Bondade gera bondade. Isto é um fato. Poucas coisas são tão humanas como o favor. Quando recebemos um favor, temos a vontade de retribuir. E para que isto se multiplique, não adianta exigir. É preciso praticar.  

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